Dizem que os dias que mudam nossa vida começam de forma completamente banal. Foi assim para Monique Amin, uma jovem de 23 anos, estudante de Administração. Em 2011, ela se preparava para chegar ao estágio quando foi abordada por um “olheiro” que fez o convite que a colocaria nas casas de todo o país por três meses.
Meses de espera e muitas seletivas depois, Monique entra no “BBB 12” e faz da espontaneidade - despretensiosa até demais para quem concorria a um prêmio de R$ 1,5 milhão - seu principal trunfo para se destacar na competição. Intensa e humana, foi eleita “gente fina” e “intrigueira” em proporções muito semelhantes em uma enquete publicada pelo UOL na época.
Monique aproveitou o “BBB” como quem tem certeza de que está diante de uma vivência única. Dançou, beijou, curtiu os shows e chorou, seja pelas incertezas do jogo ou pelas roupas duvidosas enviadas pela produção.
Sua trajetória também foi marcada por um trauma. Um participante se aproveitou de Monique em um momento de vulnerabilidade após uma festa. Daniel Echaniz foi expulso, segundo Pedro Bial, por “infringir as regras do programa” e por “um comportamento gravemente inadequado” - eufemismo falido para abafar o que, hoje, a sociedade sabe que tem nome: abuso.
14 anos depois de deixar o reality, Monique se destaca no universo da beleza e se tornou uma das diretoras de venda de uma empresa global de cosméticos. Ela se prepara para um novo passo muito importante e, ainda em 2026, quer lançar a própria marca. Além disso, também cursa faculdade de Nutrição.
Nesta entrevista ao Purepeople, Monique recorda a trajetória no “BBB 12”, adianta os primeiros produtos de sua marca de cosméticos e fala sobre o desejo de se tornar uma voz em defesa das mulheres vítimas de abuso sexual.
Purepeople: O que você pode contar do seu processo seletivo até chegar na casa?
Monique Amin: Eu nunca me inscrevi, caiu no meu colo. Eu fui achada na rua, morava em Porto Alegre na época. Eu fazia faculdade e estagiava, estava chegando no trabalho e eles me abordaram na rua. Eu comecei a fazer as seletivas normalmente, como todo mundo. Minha última seletiva foi dia 17 de maio, dia do meu aniversário, e eles só foram me ligar em dezembro. A gente nunca acha que vai dar, né? É tanta gente que participa.
Em dezembro, passei por outra seletiva e acho que fiquei de standby de alguém. Porque uma menina desistiu no confinamento do hotel e eles me chamaram três dias antes de começar o programa. Tanto que eu entrei pela plateia, ao vivo, e o Bial me chamou ali.
PP: Você formou um “triângulo amoroso” com o Jonas na época, ele até chegou a mencionar isso nesse retorno ao “BBB”. Em uma época em que os casais tinham muito mais apelo, você acha que essa narrativa fortaleceu ou atrapalhou seu jogo?
MA: Eu acho que foi até positivo, não acho que atrapalhou, não. Antigamente, as pessoas adoravam essa coisa de shippar os casais. Eu e a Renatinha, era uma coisa engraçada que a gente combinava. ‘Já vi que o Jonas está de olho em ti, tu quer ficar com ele que eu fico com o Ronaldo?’. Tipo, ela queria que eu ficasse com ele para não ficar chato porque ela estava, na verdade, querendo ficar com outra pessoa. Aí eu voltei para a festa, o Jonas chegou em mim e eu beijei ele. As pessoas adoraram essa cena. Imagina isso hoje em dia, que é tudo mimimi… Mas, antigamente, foi uma história levada numa boa.
PP: Tinha mais espontaneidade nas antigas edições mesmo.
MA: A gente não tinha medo. Eu assisto ao ‘Big Brother’ sempre, até a edição passada que foi horrorosa. Eu vejo isso como um instrumento social. Eu vejo as pessoas muito preocupadas com o cancelamento. Não tem tanta espontaneidade. A internet não era tão rápida como era hoje. Eu não tinha Instagram quando eu participei, era outra época. Poucas pessoas tinham acesso ao pay-per-view, então, não conseguiam ver a coisa acontecendo na hora. Hoje, as pessoas ficam muito preocupadas, não se jogam. Eu sinto que é meio pesado.
PP: Eu culpo essa coisa de virar influenciador. Antigamente, as pessoas entravam pelo prêmio e, hoje, entram querendo virar influenciadores e se preocupam mais com o pós.
MA: Exato. Isso banalizou o intuito final, tanto que eles aumentaram o prêmio, para ver se as pessoas se preocupam mais com o prêmio do que com a coisa de ser famoso.
[ALERTA: o texto a seguir traz relatos sensíveis sobre violência e abuso sexual]
PP: Com tudo que aconteceu no caso de assédio cometido pelo Pedro no "BBB 26", você deu um depoimento forte sobre o ocorrido com você em 2012 e comentou que ficou satisfeita de ver o acolhimento e o esclarecimento da Globo para o público. Você sente que faltou esse acolhimento da emissora com você na época? Eu lembro que a Globo evitou de todas as formas usar termos como “assédio”, “abuso”, que foi o que aconteceu.
MA: 14 anos atrás, acho que as pessoas nem sabiam o que era um estupro de vulnerável. Até para mim, um estupro era ser pega no mato, rasgar a calcinha e ser estuprada à força por um bandido. Hoje, tem vários termos. Então, nem a sociedade sabia como lidar com aquilo e nem a Globo.
Foi o primeiro caso de expulsão no “BBB”, foi muito delicado. Acho que faltou [acolhimento] comigo, muito. De fato, eu inocentei, me arrependo demais. Eu tinha 23 anos, longe da minha família, sem informação nenhuma de fora. Não sabia o que estava acontecendo. Toda mulher se sente culpada. Eu não sabia se era culpada porque bebi, porque fiquei… Será que eu estava querendo e não me lembro? Então, não queria levar isso nas costas. Eu preferi naquela época deixar para lá. Eu falei que tudo foi consensual.
Postaram um vídeo, que é muito difícil de achar. Ele me induzindo, me manipulando na manhã seguinte, dizendo que nada aconteceu. Ali, ficou muito clara minha confusão mental. Só que na minha cabeça, eu falei: ‘cara, mas eu bebi, eu deixei’. Era muito difícil para mim denunciar alguém me sentindo culpada, não tendo certeza. Mas foi nítido. Hoje em dia, qualquer pessoa pode denunciar, mesmo a vítima dizendo que não.
Eu falei confusa, sem nenhum aparato, sem alguém do meu lado, da família. Eu sabia que estava rolando um escândalo. Cada vez que eles me chamavam, eu via que eu estava na capa dos jornais, sem querer, eu vi um jornal em cima da mesa. Imagina. Eu pensei: ‘eu tô aqui há 5 dias e já tô vivendo isso, eu vou é abafar isso’.
A gente não é culpada. O meu foi gravíssimo, mas seja qual for, não tem nível. Assédio é assédio. Passou do sinal, está errado, é crime. A gente não tem culpa, não precisa ter vergonha. Eu recebi mais de 400 mensagens, eu nunca recebi tantas, de mulheres falando que já passaram por isso, que aconteceu o mesmo, se solidarizando.
Eu tive medo. Acha que é fácil uma menina de 23 anos estar lá na Globo sem saber o que está acontecendo? Não é fácil. Eu não sabia como estava minha família, o que eles estavam passando, o que estavam vendo. Eu não tive um acolhimento. Ele simplesmente foi na festa da final, foi na Ana Maria Braga. Hoje, com o que o Pedro fez, já foi vetado de tudo. Faz muitos anos, acho que a sociedade mudou muito. Mas eu sinto essa dor até hoje.
Na minha época, teve um funk ‘Se dormir, vai tomar dormindo’ [música de MC Roba Cena]. Eu sofri muito, mas estava sempre com um sorriso no rosto porque eu tinha que tentar viver, precisava aproveitar o hype, precisava trabalhar. Em várias festas que eu estava trabalhando, tocava essa música e eu me escondia, eu chorava. Não foi fácil, eu não tive um acolhimento.
Hoje, eu me arrependo. Porque tendo um lugar de voz, exposta, eu poderia dar voz a várias mulheres. Mas eu não tive essa coragem. Porque não me senti acolhida. Inclusive, muitas mulheres na época me apontavam, me acusavam. Era uma época muito machista.
Não culpo a emissora, nem nada disso. Acho que foi conduzido de uma forma errada por falta de experiência, mas eu não tive nenhum acolhimento. Hoje, é aberto ao público no ao vivo o que aconteceu. Quando o MC Guimê e o Cara de Sapato foram expulsos, todos foram informados do ocorrido [os participantes foram expulsos por passar a mão em uma participante sem consentimento e mesmo diante de recusas]. Na minha edição, não foi falado. Ninguém ficou sabendo por que ele tinha saído. Eu sofri com aquilo entalado, escondido dentro de mim até o último dia do programa. Foi muito difícil.
PP: É chocante pensar que abusadores não se intimidam nem com a presença de câmeras.
MA: Eu sempre falei isso. Naquela época, eu pensava: ‘mas será que ele ia tentar?’. Pô, está dentro de uma casa com câmeras, Rede Globo, uma das maiores emissoras do mundo. Eu pensava ‘não é possível’. Era quinto, sexto dia de programa. Olha hoje! Quatro dias de programa, o cara fez isso em sã consciência, no meio da tarde, com um monte de câmeras. Um abusador faz de qualquer jeito, em qualquer hora e lugar. Porque ele acha que se tem o direito de fazer aquilo, ele tem que fazer. Não quer saber se passou do limite para o outro. É isso que acontece mesmo com câmera, mesmo aos olhos do Brasil inteiro.
Hoje, eu quero usar minha voz. Eu me calei por tanto tempo. Se as mulheres se conectarem com a minha história porque viveram isso também, se isso der força… Sei que muitas sentem vergonha, não falam. Então, se elas se identificarem comigo e isso de alguma forma ajudar, eu estou fazendo o bem para alguém.
PP: Hoje, você está voltada para o universo da beleza e atua como diretora de uma empresa de cosméticos, a Farmasi. Explica um pouquinho do seu trabalho?
MA: A gente vai aumentando de cargo dentro da empresa, hoje eu sou diretora bronze. Eu trabalho na empresa, não sou dona. Logo que a empresa chegou [no Brasil], eu já entrei.
Hoje, eu sou muito mais uma líder de equipe, uma mentora, do que uma vendedora de maquiagens. Tenho quase 500 pessoas na minha equipe. Eu lidero as consultoras, faço treinamento de vendas, treinamento de mindset, de objeção. Tem gente de Norte a Sul, de Londres, dos Estados Unidos. Algumas também são líderes que eu ajudei a formar. Tem diretoras abaixo de mim na minha equipe. Ajudei a captar pessoas, a vender, a fazer eventos.
Achei uma coisa que eu amo. Eu amo cosméticos, maquiagem… Eu uso, gosto dessa pegada de produtos naturais. E consigo usar esse poder da comunicação para esse negócio.
PP: Você falou que vai lançar uma marca de cosméticos. O que você pode adiantar dessa nova empreitada?
MA: Vai ser toda natural. Vou fazer iluminador facial já com proteção solar, iluminador corporal com hidratante… Primeiro, vou começar nessa linha e, depois, tentar focar no skincare, no autocuidado. Porque eu já tenho quase 40 anos, então, acho que a gente tem que cuidar da beleza, da estética e da saúde, tudo junto. Acho que até agosto, vai estar tudo certo.
PP: Como foi sua experiência em ‘A Fazenda’ cinco anos depois? Estar pela segunda vez em um reality show é um facilitador?
MA: ‘A Fazenda’ veio em um momento muito difícil da minha vida, eu tinha me separado, tinha ficado sem nada na separação. Era um relacionamento bem tóxico, a pessoa me deixou a ver navios.
Veio em um momento financeiro primordial, porque ‘A Fazenda’ paga para você entrar, e pagaram um dinheiro bom. Eu estava muito mais focada nisso do que em aparecer de novo. Eu já estava mais velha, tinha conta para pagar, eu ficava nas provas, concorri aos prêmios. Tanto que eu ganhei carro, prova de R$ 20 mil, prova de R$ 30 mil.
No ‘BBB’, eu não ganhei nada! Nada! Eu era a primeira a sair das provas, eu nem me desgastava. Nunca fui Líder, não ganhei porra nenhuma. Em ‘A Fazenda’, não considero que eu fui tão legal quanto fui no ‘Big Brother’. Eu estava muito focada nos meus objetivos. No ‘Big Brother’, eu só pensava: ‘cara, fiquei mais uma semana, tenho mais duas festas pela frente’. Essa era minha preocupação.
PP: Se esse grupo dos Veteranos permanecesse, você toparia voltar para o “BBB”?
MA: Eu super toparia, mas acho que não botam por esse caso [de abuso]. Acho muito. Na minha época, eu fui super querida. Todo mundo me fala isso. Eu acho que eles têm medo. Talvez, o assunto voltaria à tona. Eu ficaria super feliz, porque eu amo [o ‘BBB’], mas não sei se teriam coragem.
PP: Tem uma entrevista sua de 2012 que você diz que tinha medo de esquecida. Como foi para você enfrentar os altos e baixos da fama após sair do reality?
MA: Eu era muito nova. Não tenho essa preocupação, já foi, passou muito tempo. Era uma coisa de menina nova, vivendo aquela loucura toda com medo de que acabasse. Eu sempre fui muito pé no chão. Eu fiquei morando seis meses no Rio de Janeiro e já voltei para minha cidade. Eu sou muito enraizada, tenho minhas amigas há 20 anos, então, nunca me iludi muito com aqueles amigos momentâneos. Sempre gostei de voltar para as minhas raízes.